Um relatório recente da OCDE acendeu um alerta forte sobre a carreira docente no Brasil. O país aparece entre os piores em satisfação com as condições de trabalho e também entre os que mais perdem professores, com efeitos diretos na estabilidade do sistema de ensino.
O levantamento reúne dados de países membros da OCDE, nações do G20 e países em processo de adesão ao grupo. A ideia é mostrar como anda a carreira docente, quanto os sistemas educacionais investem e quais barreiras atrapalham os resultados em sala de aula e fora dela.
Menos da metade dos professores brasileiros está satisfeita com as condições de trabalho
Segundo o estudo, 44,3% dos professores brasileiros dizem estar satisfeitos, em algum grau, com as condições de emprego. Aqui, a conta não considera o salário.
Na comparação internacional, o Brasil fica atrás apenas de Japão, com 37,3%, e Portugal, com 39,1%. O contraste é grande porque a média da OCDE chega a 68,4%.
Quando o recorte passa para remuneração, a situação piora. Apenas 22,3% dos professores brasileiros afirmam estar satisfeitos com os salários. Esse é o quinto pior índice entre os países avaliados e fica mais de 16 pontos percentuais abaixo da média da OCDE, que é de 38,7%.
Saída de professores cresce e preocupa especialistas
O relatório também mostra que a saída da profissão cresce. Entre 2024 e 2025, 10,3% dos professores brasileiros do ensino fundamental e médio deixaram a carreira. Isso inclui aposentadorias e desistências do trabalho docente.
No ranking com dados disponíveis, o percentual aparece como o quarto mais alto entre 24 países. O Brasil fica atrás apenas da Comunidade Francesa da Bélgica (11,6%), Letônia (12%) e Dinamarca (14,5%).
O estudo ainda aponta outra preocupação para a renovação do quadro. 12,3% dos docentes brasileiros entre 30 e 49 anos dizem que pretendem deixar a profissão nos próximos cinco anos.
Enquanto isso, o crescimento do número de professores no Brasil fica aquém do esperado. De 2015 a 2024, o aumento de docentes nos anos iniciais do ensino fundamental foi só de 4%. A média dos países da OCDE, nesse mesmo período, foi de 13%.
Indisciplina, estresse e contratos temporários afetam o ambiente escolar
Além das questões de permanência e remuneração, o relatório destaca fatores que pesam no dia a dia do professor.
Em 2024, 89,4% dos docentes brasileiros afirmaram precisar acalmar alunos indisciplinados frequentemente ou sempre. O índice fica acima da média da OCDE, que é de 72%.
O levantamento também aponta aumento de estresse no trabalho. A proporção de educadores que relatam muito estresse subiu de 13,6% em 2018 para 20,9% em 2024.
No cotidiano profissional, um dos maiores gatilhos de pressão aparece no excesso de tarefas administrativas: 54,4% dos professores brasileiros citam isso como uma das principais fontes de estresse no trabalho.
Outro ponto sensível é a estabilidade. O estudo mostra que 63% dos docentes brasileiros têm vínculo permanente, o segundo menor percentual entre os países analisados. A média da OCDE é de 80,7%.
Professores trabalham mais horas e sentem pouca valorização social
O reconhecimento social da profissão aparece como outro calcanhar de Aquiles. Apenas 14,1% dos professores brasileiros acreditam que a carreira docente é valorizada pela sociedade. O número fica entre os menores índices observados nos países participantes.
A carga de trabalho também pesa. Nos países da OCDE, professores dos anos iniciais da educação básica lecionam, em média, 770 horas por ano. No Brasil, a carga mínima anual chega a 800 horas para todos os níveis da educação básica.
Brasil investe menos em educação do que a média internacional
O relatório ainda coloca os investimentos educacionais no centro do debate. Em 2023, o Brasil aplicou aproximadamente US$ 4,1 mil por estudante na educação básica até o ensino superior público.
Comparando com o restante do grupo, a média da OCDE ficou em US$ 13,6 mil. Ou seja, o valor brasileiro fica mais de três vezes abaixo da média.
O estudo também relaciona os resultados com formação. Apenas 22% dos brasileiros entre 25 e 64 anos têm ensino superior completo, enquanto a média da OCDE é de 43%.
Quando o assunto é pós-graduação, o quadro fica ainda mais distante. Só 1% da população brasileira nessa faixa etária tem mestrado, contra uma média de 15% entre os países da organização.
Jovens que não estudam nem trabalham seguem como desafio
O relatório também olha para um grupo que aparece como desafio no Brasil: os jovens “nem nem”, que não estudam nem trabalham.
Em 2024, esse grupo representava 22% dos brasileiros entre 18 e 24 anos. O número fica acima da média da OCDE, de 14%. Ainda assim, houve melhora em relação a 2016, quando o percentual era de 27%.
De acordo com a OCDE, longos períodos de inatividade na juventude podem causar efeitos que se estendem por anos, prejudicando a trajetória profissional e os resultados socioeconômicos ao longo da vida.
No fim, os dados colocam em evidência um conjunto de problemas que se conecta: valorização dos professores, condições de trabalho e investimentos na educação. Tudo isso segue no centro das discussões sobre o futuro do ensino no Brasil.




