PISA 2025: Brasil melhora 3 áreas, mas desigualdade segue forte

PISA 2025 Brasil desigualdade entre redes
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O Brasil chegou ao PISA 2025 com avanços relevantes nas três áreas avaliadas, mas ainda deixa claro um problema que não some: a desigualdade entre redes continua pesando no resultado final. A mudança é real — e o desafio também.

PISA 2025 mostra ganhos em Leitura, Matemática e Ciências, mas não mede tudo

Na amostra brasileira, 72,4% dos estudantes avaliados estão em escolas estaduais da rede pública, enquanto 27,6% estudam em escolas privadas. Os dados divulgados pela OCDE, com elaboração do INEP, apontam que o país reduziu a distância para a média da OCDE desde 2006: foram 44 pontos em Leitura, 39 pontos em Matemática e 36 pontos em Ciências.

Só que o gap que sobrou ainda é grande. Em Leitura, faltam 58 pontos; em Matemática, 92 pontos; e em Ciências, 77 pontos. E tem um detalhe que dificulta a cobrança direta: o levantamento fala em “desempenho variável” entre as redes, mas não traz a distância exata rede pública vs. privada.

58 pontos
Gap em Leitura
92 pontos
Gap em Matemática
77 pontos
Gap em Ciências

Quase todo o retrato do PISA vem da rede estadual

Quase três em cada quatro estudantes avaliados pelo PISA 2025 estudam em escola estadual. Ou seja: essa maioria carrega boa parte do peso estatístico do desempenho do Brasil. E é nela que se concentram as lacunas apontadas pelo próprio levantamento, incluindo infraestrutura mais frágil e variação na formação docente.

O recorte urbano entra junto. A amostra mostra 95,9% de estudantes em áreas urbanas. Só 4,1% está em contexto rural. Resultado: a realidade de escolas do campo, ribeirinhas, indígenas e quilombolas quase não aparece nos números que viram direcionamento de política pública.

E existe um outro ponto que trava comparações: o documento do INEP não traz a pontuação isolada de escolas estaduais versus privadas em nenhuma das três áreas. Isso vira um problema prático. Depois de 20 anos aplicando o PISA no Brasil, ainda não aparece no material oficial uma métrica clara e recorrente de quanto a rede privada supera a rede pública.

Sem isso, fica difícil montar políticas de equalização baseadas em evidência, porque não dá para corrigir uma distância que não fica quantificada de forma pública.

Infraestrutura e formação docente empurram a desigualdade para a frente

O PISA 2025 aponta fatores estruturais ligados à desigualdade entre redes: infraestrutura, formação docente e, indiretamente, o próprio desenho da amostra que concentra a maior parte dos estudantes na rede pública urbana.

Em infraestrutura, o documento cita explicitamente “lacunas em laboratórios e recursos de ensino”. Isso ajuda a explicar por que o Brasil ainda fica 77 pontos atrás da OCDE em Ciências, mesmo tendo reduzido a distância em 36 pontos desde 2006. Ciência não depende só de teoria: exige prática, espaço e equipamento — e esses itens não nascem apenas com mais matrícula.

Na formação docente, o levantamento registra “variação” entre professores das diferentes redes. Não vem com o número exato dessa variação, mas a própria menção sustenta uma hipótese forte do debate educacional: quando a rede pública tem menos acesso a formação continuada, especialização e capacitação permanente, isso tende a aparecer na sala de aula e, depois, no resultado das avaliações.

O exame também traz um dado que muda o foco: 84% dos estudantes brasileiros dizem valorizar a educação e só 16% enxergam a escola como perda de tempo. Então não parece falta de interesse. O ponto é a distância entre o que o aluno quer aprender e o que a escola, com os recursos que tem, consegue entregar.

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Ambição aparece, mas trava na falta de base técnica e de acesso

Quando a desigualdade se mantém por décadas, ela vira desigualdade de trajetória. O PISA 2025 mostra isso de um jeito direto: 84% dos estudantes brasileiros querem seguir carreiras ligadas à sustentabilidade. É uma ambição que conversa com demandas do mercado global.

Mas ambição sem base forte em Ciências e Matemática tende a encontrar barreiras. O Brasil ainda está 77 e 92 pontos atrás da OCDE nessas áreas, respectivamente. E isso costuma pesar na hora de acessar cursos superiores mais concorridos, especialmente em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática).

Outro efeito prático aparece na forma como o material é divulgado: o estudante da escola estadual urbana, maioria absoluta na amostra, carrega o gap nacional, mas o levantamento não esclarece quanto do problema é “daquele grupo” e quanto é resultado da média nacional puxada pela rede privada. Sem essa separação, gestores públicos ficam sem um número fechadinho para justificar investimento emergencial na rede que mais precisa.

Duas décadas de avanço real contra a média da OCDE

Entre 2006 e 2025, o Brasil ocupa a 7ª posição entre os países que mais cresceram em Leitura (15 pontos) e Matemática (7 pontos). Em Ciências, aparece na 8ª posição (com 18 pontos), considerando mais de 50 países que participam do PISA desde 2006.

Esse avanço é de verdade. Só que ele não resolve tudo sozinho. Crescer a partir de uma base muito baixa não elimina a distância de quem começou na frente. Em 2006, o Brasil estava 102 pontos atrás da OCDE em Leitura. Em 2025, caiu para 58 pontos. Em Matemática, saiu de 131 para 92 pontos. Em Ciências, foi de 113 para 77 pontos.

O resultado é uma melhora consistente, mas ainda insuficiente: nas três áreas, o país segue com defasagem superior a meio ano letivo em relação à média dos países desenvolvidos, usando parâmetros usuais de conversão de pontos do PISA em anos de escolaridade.

Formação docente e infraestrutura podem reduzir o hiato

O PISA 2025 também aponta uma pista do que merece prioridade com a nova competência Resolução de Problemas com Ferramentas Computacionais (RPFC), que entra nesta edição para avaliar pensamento computacional. E isso depende diretamente de acesso a equipamento e de um professor capacitado nessa área.

Então, investir na formação docente dessa competência específica faz sentido. Programas de especialização e mestrado profissional em ensino de tecnologia podem atuar diretamente em uma lacuna que o próprio exame passou a medir.

Para gestores públicos e secretarias, o documento evidencia três frentes: levar avaliação e investimento para áreas rurais, hoje quase ausentes na amostra (apenas 4,1%); equipar laboratórios e bibliotecas nas escolas estaduais, atacando a lacuna de infraestrutura citada no levantamento; e ampliar o acesso dos professores da rede pública a formação continuada, diminuindo a “variação” na formação docente.

E tem um ponto metodológico que não dá para ignorar: cobrar que o INEP e a OCDE publiquem, nas próximas edições, a pontuação de desempenho segregada por rede pública e privada de forma explícita. Sem esse número, a desigualdade entre redes continua como consenso qualitativo, não como uma meta quantificável de política pública.

O que ainda falta medir no Brasil para atacar a desigualdade

O Brasil fechou, em 20 anos, quase metade da distância que o separava da OCDE em Leitura. Isso mostra que o sistema responde a investimento e política pública sustentada. Mas o PISA 2025 não resolve sozinho uma pergunta central: quanto dessa distância fica no que acontece com os 72,4% de estudantes da escola estadual, quando você compara com os 27,6% da escola privada.

Enquanto essa métrica não ficar pública, a desigualdade entre redes segue difícil de cobrar, difícil de financiar do jeito certo e difícil de corrigir com foco.