Calor intenso e eventos climáticos extremos não afetam só as ruas e as casas. Em 2025, eles interromperam o direito à educação de 745 mil estudantes no Brasil. O dado faz parte de um levantamento inédito divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que mapeou em escala global como o clima está bagunçando a rotina escolar de crianças e adolescentes.
O cenário no mundo também é pesado: 171 milhões de estudantes em 106 países e territórios foram impactados pela mesma questão, o que equivale a cerca de 1 em cada 10 alunos no planeta. Ou seja: não é um problema localizado — é uma crise que atinge sistemas educacionais inteiros quando o clima piora.
Brasil está entre os países afetados por interrupções climáticas na educação
A UNICEF divulgou, em setembro de 2026, um comunicado baseado em uma análise abrangente sobre os riscos climáticos e seus efeitos na educação global. A mensagem central é direta: a interrupção das aulas vai além de um evento meteorológico isolado. Ela aparece como um padrão de vulnerabilidade educacional que cresce conforme eventos extremos ficam mais frequentes.
O estudo usou dados de 106 países e territórios e olhou para diferentes formas de interrupção. Entram desde casos em que escolas fecham totalmente até situações em que o modelo de ensino muda e a presença dos estudantes cai. Com esse mapeamento, dá para entender não só quantos alunos foram afetados, mas também como os sistemas educacionais foram interrompidos na prática.
Impacto no Brasil
No Brasil, 745 mil estudantes foram impactados em 2025. Esse número reúne crianças e adolescentes que passaram por pelo menos um tipo de interrupção no processo educacional, como ausência de aulas presenciais, migração forçada para o ensino remoto, redução do calendário letivo e até frequência prejudicada por problemas para se deslocar.
O dado acompanha a intensidade dos eventos climáticos do período. Houve ondas de calor que dificultaram a permanência em salas de aula e também precipitações extremas que atrapalharam o acesso às escolas. E tem mais: a distribuição dessas ocorrências não foi igual para todo mundo. Regiões com infraestrutura educacional mais frágil tendem a sofrer impactos maiores e por mais tempo.
Dimensão Global
Quando o assunto sai do Brasil e vai para o mundo, a proporção chama atenção. Os 171 milhões de estudantes afetados correspondem a 1 em cada 10 crianças e adolescentes. Isso reforça que a interrupção climática da educação não é algo raro ou “pontual”. Ela vira um fator estrutural que mexe no acesso educacional em escala global.
A pesquisa também deixa claro que o problema não fica restrito a regiões específicas. O estudo considerou 106 países e territórios, mostrando desafios tanto em nações desenvolvidas quanto em desenvolvimento, com intensidades e características diferentes. Em geral, países insulares, regiões semiáridas, áreas com histórico de enchentes e locais com eventos extremos mais frequentes tendem a concentrar os maiores índices de interrupção nas escolas.
Causas e Mecanismos de Interrupção
A UNICEF apontou quatro mecanismos principais pelos quais eventos climáticos interrompem a educação. O primeiro é o fechamento de escolas, quando a segurança ou a infraestrutura fica comprometida — por enchentes, deslizamentos, calor extremo ou danos nos prédios.
O segundo mecanismo envolve a transição para ensino remoto. Aqui, as instituições até podem funcionar, mas sem presencialidade. Só que isso reduz a qualidade da experiência educacional para alunos que não têm acesso adequado a tecnologia ou internet. O terceiro mecanismo é a redução do tempo letivo, que corta o calendário e comprime conteúdos ou posterga períodos. Por fim, existe a diminuição da frequência estudantil: estudantes faltam porque não conseguem se deslocar, precisam participar de atividades de recuperação familiar ou por restrições de saúde.
Disparidades e Vulnerabilidade
Nem todo estudante sofre da mesma forma. A interrupção climática atinge de maneira desigual, e a desigualdade educacional se mistura com a desigualdade climática. A pesquisa destaca que alunos de regiões menos desenvolvidas, em contextos de pobreza e com longos deslocamentos até a escola tendem a viver impactos mais fortes e mais difíceis de contornar.
Alguns grupos encontram barreiras ainda maiores quando o clima prejudica as aulas. Meninas, estudantes com deficiência, crianças indígenas e adolescentes em situação de rua ou migrantes frequentemente enfrentam obstáculos extras. Para eles, uma interrupção que poderia ser temporária pode virar abandono escolar permanente, principalmente quando a retomada das aulas esbarra em pressões econômicas familiares ou em mudanças na vida de quem estuda.
Consequências para a Educação
Quando a educação para, o prejuízo vai se acumulando. Dias ou semanas sem aulas geram déficit de aprendizagem que nem sempre se recupera depois. E quanto mais interrupções acontecem ao longo do ano letivo, maior fica o atraso em relação aos colegas que vivem em regiões climaticamente mais estáveis.
As perdas não ficam só no conteúdo escolar. A interrupção mexe com o lado socioemocional e também com a alimentação. Muitas escolas oferecem alimentação escolar, e quando fecham, estudantes de famílias de baixa renda perdem essa fonte importante de nutrição. Além disso, a desconexão social e a quebra da rotina afetam a saúde mental, especialmente para crianças e adolescentes que veem a escola como um ambiente seguro e estruturante.
Perspectivas e Recomendações
O relatório da UNICEF não serve apenas para mostrar o problema. Ele também empurra a conversa para a ação. A recomendação aponta para uma estratégia coordenada: governos, sistemas educacionais e agências internacionais precisam encaixar resiliência climática no planejamento educacional. Isso inclui infraestrutura escolar mais preparada para eventos extremos e planos de contingência para reduzir a perda de dias letivos.
A adaptação também passa por mudanças pedagógicas. Entram em cena modelos de educação híbrida bem planejados, uso estratégico de tecnologia quando for viável, calendários escolares flexíveis que considerem períodos de clima adverso e programas de recuperação acelerada. Ao mesmo tempo, políticas de mitigação climática continuam essenciais. Diminuir a frequência e a intensidade dos eventos extremos é parte central para proteger o direito à educação.
No Brasil, os dados funcionam como alerta para gestores públicos ajustarem orçamentos e políticas educacionais. O impacto de 745 mil estudantes em um ano reforça a urgência de investir em infraestrutura resiliente, formação docente em educação climática e sistemas de apoio para as populações afetadas.
Educação Resiliente no Clima
745 mil estudantes brasileiros
171 milhões no mundo
1 em cada 10 alunos afetados
Fonte: UNICEF (setembro 2026)
O levantamento da UNICEF destaca que a educação sofre quando o clima aperta. Acesse informações diretamente no site da UNICEF.




