Se o Brasil quiser encarar de verdade o apagão docente, vai precisar pensar em políticas que incentivem a mobilidade de 19.378 profissionais por ano. Esse é um dos números apontados na segunda edição do estudo Apagão Docente, publicado pelo Movimento Profissão Docente com base nos censos da Educação Básica e da Educação Superior de 2024.
Na prática, o levantamento mostra o descompasso territorial: nem sempre a região onde os licenciados terminam a faculdade coincide com os lugares onde as redes públicas mais precisam de professores. E isso ajuda a explicar por que “sobrar” gente em um canto não resolve falta em outro.
Estudo mostra que falta professor em grande parte das regionais
Quando a análise fica no nível nacional, os concluintes de licenciaturas presenciais seriam suficientes para atender à necessidade anual em 12 dos 14 componentes curriculares estudados. Só que o cenário muda totalmente quando os dados são divididos por 535 regionais de ensino.
Considerando instituições públicas e privadas presenciais, apenas cinco regionais (ou 0,9% do total) tinham concluintes suficientes para os 14 componentes. Em outras 403 regionais, faltavam concluintes em nove ou mais áreas. Já em 125 regionais, não havia quantidade suficiente em nenhum dos componentes avaliados.
O problema não é só “ter ou não ter” gente. A distância entre regiões impede que um possível excedente em um lugar resolva a carência em outro. O estudo usa a Bahia como exemplo: encontrou 665 concluintes em Língua Portuguesa para uma necessidade estimada de 373 profissionais, mas a regional de Bom Jesus da Lapa não registrou concluintes para demanda anual de 18, enquanto Amargosa tinha apenas 40 concluintes para uma necessidade de dez.
E mesmo quando existe essa proximidade no mapa, o deslocamento pesa: o relatório cita que o trajeto de carro entre as regionais pode ultrapassar sete horas, o que dificulta a redistribuição na vida real.
Mobilidade ajuda, mas ainda deixa lacunas grandes
O número de 19.378 profissionais considera um cenário hipotético: concluintes poderiam sair de uma regional com excedente para outra com carência, no mesmo estado. Mesmo assim, o déficit não some.
Depois dessa redistribuição, ainda faltariam anualmente 12.171 licenciados em Pedagogia e 592 em Matemática. Ou seja: a necessidade não se concentra só em um ou dois lugares. Ela atravessa o sistema.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Mobilidade anual estimada | 19.378 profissionais |
| Déficit restante em Pedagogia | 12.171 por ano |
| Déficit restante em Matemática | 592 por ano |
Bolsas precisam ligar território e disciplina para funcionar
Os autores defendem que programas e incentivos considerem o território e a área de formação. A recomendação aparece ligada a políticas como o Pé-de-Meia Licenciaturas e a Bolsa Mais Professores.
O ponto central é simples: se o incentivo for distribuído sem olhar para disciplina e regional, a política pode aumentar a formação justamente onde já existe excedente. Aí ela não chega nos territórios onde a demanda é maior.
profissionais em uma redistribuição anual hipotética
regionais de ensino analisadas pelo estudo
consideradas na comparação territorial
Na prática, isso pode significar bolsas de permanência para estudantes de áreas prioritárias, incentivos para atuar em regionais com carência e planejamento sobre onde as vagas de graduação serão abertas. O relatório também ressalta que cada rede precisa completar o diagnóstico com dados internos e informações qualitativas.
As contas do déficit dependem das premissas usadas no estudo
O levantamento trabalha com cursos presenciais e adota premissas específicas. Entre elas, entra uma carreira média de 27 anos, jornada semanal de 40 horas, um terço da carga destinado a atividades fora da sala e a ideia de que a quantidade de turmas permanece constante.
A demanda anual representa a reposição estimada dos profissionais que deixam a rede por aposentadoria. Além disso, os cálculos usam dados de um único ano e não acompanham os profissionais ao longo do tempo.
O estudo também não garante que todos os concluintes vão ingressar nas redes públicas nem que todos vão aceitar mudar de residência. Por isso, os números funcionam como cenário de planejamento — e não como uma previsão exata do que vai acontecer com cada professor.
