Um levantamento do Movimento Profissão Docente mostra o tamanho do desafio no Brasil: das 535 regionais de ensino analisadas, apenas 3 conseguem formar professores suficientes para todas as 14 disciplinas escolares ao mesmo tempo.
Menos de 1% das regionais consegue cobrir todas as 14 disciplinas
O resultado indica que esse grupo representa 0,6% do total quando entram só os concluintes de instituições públicas de licenciatura. Já quando a conta inclui também concluintes de instituições privadas (com e sem fins lucrativos), o número sobe para 5 regionais (0,9%) com formação suficiente em toda a matriz curricular da educação básica.
O estudo usou como base a 2ª edição da Nota Técnica “Apagão Docente: Compreendendo as variações regionais e os caminhos para seu enfrentamento”, divulgada em outubro de 2025. Os cálculos consideraram dados do Censo da Educação Básica e do Censo do Ensino Superior de 2024, com recorte em 27 unidades federativas e cursos presenciais de licenciatura.
Para chegar ao diagnóstico, os pesquisadores compararam a quantidade de concluintes com a demanda anual estimada por professor em cada componente curricular analisado. E o critério foi bem direto e exigente: a regional só conta como “resolvida” se os formados cobrirem ou superarem a necessidade em todos os 14 componentes simultaneamente.
O critério compara concluintes de 2024 com a demanda anual nas 14 áreas
Na prática, o estudo pega cada uma das 535 regionais de ensino e cruza dois lados da equação. De um lado, o número de concluintes de cursos de licenciatura presencial em 2024. Do outro, a demanda anual estimada de novos professores na mesma região.
Esse confronto acontece considerando 14 componentes curriculares: Arte, Biologia, Ciências, Educação Física, Filosofia, Física, Geografia, História, Inglês, Língua Portuguesa, Matemática, Pedagogia, Química e Sociologia.
O ponto que torna o dado tão duro é que não basta sobrar professor em uma área. Se falta docente em qualquer disciplina — por exemplo, Matemática, Pedagogia ou Filosofia — a regional não entra no grupo “resolvido”. É por isso que o número de regionais que fecham o pacote completo fica tão baixo.
O estudo reforça que, mesmo em locais com bom desempenho médio, quase sempre aparece pelo menos uma disciplina com déficit. Entre as mais recorrentes em quase todo o país, o levantamento cita Pedagogia, Matemática, Filosofia ou Sociologia. Então, ter as 14 disciplinas cobertas ao mesmo tempo, na mesma regional, vira uma combinação improvável.
125 regionais não resolvem nenhuma disciplina; 403 ficam muito abaixo do esperado
No extremo oposto, o cenário fica ainda mais preocupante. Das 535 regionais analisadas, 403 (75%) não tinham, em 2024, concluintes suficientes para cobrir nove ou mais das 14 disciplinas.
Dentro desse grupo, 125 regionais (23%) ficam na situação mais crítica: elas não conseguiam cobrir a demanda em nenhuma das disciplinas analisadas. Ou seja, nem mesmo no componente que teve melhor resultado em cobertura.
O levantamento destaca que Biologia foi o único componente que apareceu como tendo concluintes suficientes em 100% das unidades federativas quando observado por estado. Mesmo assim, isso não se traduziu em “cobertura” para todas as regionais. A distância entre o que aparece no agregado e o que acontece no território fica evidente.
3 regionais formam professores suficientes em todas as 14 disciplinas (considerando só instituições públicas).
125 regionais não formam professores suficientes em nenhuma das 14 disciplinas — um contingente cerca de 40 vezes maior do que o grupo que conseguiu cobrir tudo.
Por que análises nacionais e estaduais deixam essa desigualdade passar
O contraste aparece porque o estudo desce para regionais de ensino, uma divisão intermediária entre município e estado. Esse recorte foi definido pelas secretarias estaduais de Educação e tenta representar melhor a distância real que um professor enfrenta no dia a dia para trabalhar.
Em análises anteriores sobre apagão docente, inclusive na referência usada como base pelo próprio Movimento Profissão Docente, a discussão costumava parar no nível estadual. Quando você soma tudo por estado, o cenário “parece” mais favorável. Mas o estudo mostra que isso mascara a distribuição desigual dentro de cada unidade.
Segundo a nota técnica, com exceção de Distrito Federal e Piauí, os estados brasileiros apresentam escassez de professores em pelo menos um componente curricular. Ainda assim, na média estadual, muitos conseguem mostrar equilíbrio em boa parte das disciplinas quando o olhar fica só no agregado. A granularidade regional, porém, revela como o “equilíbrio” pode coexistir com faltas profundas em partes diferentes do mesmo estado.
O dado reforça uma conclusão central: olhar o apagão docente apenas no nível nacional ou estadual pode gerar diagnóstico errado. A falta de professores vira, antes de tudo, um problema de distribuição territorial. E enfrentar isso exige políticas públicas que mapeiem e atuem direto nas regionais que ainda não conseguem formar professores suficientes para todas as disciplinas da educação básica.
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