Dois em cada três estudantes do ensino médio da rede pública estadual (66%) afirmam que há disciplinas que passam algum tempo sem professor. Além disso, 36% dos alunos ouvidos disseram ter pensado em abandonar os estudos nos seis meses anteriores à pesquisa. Os dados são do levantamento “O que os estudantes pensam sobre a educação?”, do Datafolha, divulgado em 15 de outubro de 2026 e encomendado pelo Todos Pela Educação e instituições parceiras.
O estudo entrevistou 5.296 estudantes de 12 a 21 anos matriculados nas redes estaduais, em todas as regiões do país. As respostas também abordaram a avaliação das escolas, as expectativas em relação aos próximos governadores, o ensino técnico, o uso de inteligência artificial e a educação em tempo integral.
Pesquisa ouviu estudantes do ensino fundamental 2 e do médio
As entrevistas presenciais e individuais foram realizadas entre 28 de maio e 13 de julho de 2026, em pontos de grande circulação de pessoas. Cada entrevista durou, em média, 15 minutos. A amostra reuniu 2.647 estudantes do ensino fundamental 2 e 2.649 do ensino médio.
A margem de erro máxima para o total da amostra é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A ponderação levou em conta a etapa de ensino e a natureza do município, com base nas matrículas do Censo da Educação 2025.
A pesquisa foi encomendada pela Fundação Itaú, Fundação Lemann, Fundação Telefônica Vivo, Instituto Natura, Instituto Sonho Grande, Instituto Unibanco e Todos Pela Educação. Os resultados foram divulgados dez dias antes do segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro. Os governadores que assumirem em 2027 serão responsáveis pela administração das redes estaduais de ensino.
Os resultados registram a percepção dos estudantes e não correspondem a dados administrativos das redes de ensino.
Falta de professores é relatada nas duas etapas
No ensino médio, 66% dos entrevistados disseram que há disciplinas que ficam por algum tempo sem professor. No ensino fundamental 2, a proporção foi de 61%. Apesar disso, 69% dos alunos do ensino médio e 78% dos estudantes do fundamental 2 percebem os professores como motivados para dar aulas. Os pesquisadores observam que a avaliação positiva da motivação convive com relatos de falta de docentes; cerca de um terço dos estudantes menciona ausências frequentes.
A percepção sobre a presença de professores também varia conforme a avaliação que os alunos fazem da escola. Entre aqueles que classificam a instituição como ruim ou péssima, 83% relatam disciplinas que ficam um período sem docente. O índice é de 59% entre os que avaliam a escola como ótima ou boa.
As faltas frequentes são mencionadas por 60% dos estudantes que consideram a escola ruim ou péssima, ante 30% dos que a avaliam como ótima ou boa. A ausência de professores também aparece entre os problemas escolares apontados: 53% no primeiro grupo e 24% no segundo.
A atuação docente está associada à avaliação geral da escola nas respostas. Entre os estudantes que dizem que os professores explicam bem os conteúdos, 75% classificam a instituição como ótima ou boa. Entre aqueles que consideram ruins as explicações, essa avaliação positiva cai para 48%. A percepção sobre o trabalho dos professores é mais favorável entre alunos do ensino em tempo integral, tanto no fundamental 2 quanto no ensino médio.
Mais de um terço pensou em abandonar os estudos
Nos seis meses anteriores à pesquisa, 36% dos estudantes consideraram deixar de estudar. Entre os que pensaram nessa possibilidade, 10% afirmaram que isso ocorreu muitas vezes. A proporção de alunos que cogitaram abandonar a escola chega a 26% entre aqueles que a avaliam como ruim ou péssima e a 18% entre os que já trabalham.
A intenção de parar de estudar também difere conforme a avaliação da instituição: 57% dos alunos que classificam a escola como ruim ou péssima pensaram em abandoná-la, contra 29% dos que a consideram ótima ou boa. Os resultados mostram uma associação entre as respostas, mas não estabelecem uma relação de causa e efeito.
Cansaço, estresse e ansiedade estão entre os motivos citados pelos estudantes. Entre aqueles que consideraram deixar os estudos, 21% mencionaram a busca por independência financeira e 17% disseram precisar contribuir com a renda familiar.
No conjunto dos entrevistados, 69% avaliam a escola como ótima ou boa, 26% como regular e 5% como ruim ou péssima.
Alunos esperam melhorias no ensino e na aprendizagem
Para 25% dos estudantes do ensino médio estadual, melhorar o ensino e a aprendizagem é a principal mudança esperada dos governadores que tomarão posse em 2027. Em respostas espontâneas, os alunos também citaram a capacitação dos professores, mudanças nas formas de ensinar, ampliação do número de docentes, redução das faltas e melhorias na infraestrutura das escolas.
Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, afirmou que a aprendizagem deve ser uma prioridade dos próximos governos. “Os estudantes colocam as oportunidades de aprendizagem no topo de suas expectativas sobre o que é uma boa escola”, declarou.
Ensino técnico e profissionalizante é valorizado
Mais de 90% dos estudantes consideram importante ter a oportunidade de fazer um curso técnico ou profissionalizante durante o ensino médio. Para 60%, essa possibilidade é muito importante; outros 31% a consideram importante. De acordo com o Censo Escolar, cerca de 20% dos alunos dessa etapa estão matriculados na Educação Profissional e Tecnológica.
Uso de inteligência artificial e recursos tecnológicos
Ao todo, 71% dos entrevistados usam inteligência artificial para estudar com frequência ou de vez em quando. Entre os estudantes do ensino médio, 46% afirmam utilizar essas ferramentas com frequência.
Além disso, 70% dizem que os professores usam recursos tecnológicos nas aulas pelo menos uma vez por semana. Cerca de um em cada três estudantes discorda que os docentes estejam bem preparados para utilizar tecnologia em sala de aula.
Tempo integral e escolha dos itinerários formativos
Entre os alunos matriculados em escolas de tempo integral, 74% avaliam a instituição como ótima ou boa. No ensino regular, o percentual é de 68%. Os estudantes em tempo integral representam 21% da amostra da pesquisa.
A possibilidade de escolher os itinerários formativos também aparece associada à avaliação da qualidade escolar. Entre os alunos que puderam escolher plenamente uma trajetória alinhada aos próprios interesses, 90% consideram a qualidade da escola ótima ou boa. O índice é de 43% entre aqueles que tiveram pouca ou nenhuma possibilidade de escolha.
