Um estudo do Movimento Profissão Docente aponta que a demanda por professores no Brasil varia de acordo com a disciplina e a região. Com base nos censos educacionais de 2024, o levantamento estima déficit anual de 12.171 docentes em Pedagogia e de 592 em Matemática, enquanto Biologia apresenta superávit na maioria dos estados analisados.
A segunda edição do relatório “Apagão Docente: Compreendendo as variações regionais e os caminhos para seu enfrentamento”, publicada em outubro de 2025, examinou 535 regionais de ensino nas 27 unidades da Federação. O resultado mostra que a disponibilidade de professores não é uniforme: uma disciplina pode ter excedente em um estado e escassez em outro, e os dados estaduais podem esconder necessidades locais.
Levantamento aponta escassez em grande parte das regionais
Das 535 regionais analisadas, apenas cinco (0,9%) têm concluintes de licenciatura em número suficiente para atender à demanda nos 14 componentes curriculares considerados. Outras 403 regionais, equivalentes a 75% do total, enfrentam escassez em pelo menos nove componentes.
Considerando os 7.490 cruzamentos entre regional e componente curricular, somente 24% apresentam oferta suficiente de novos licenciados. Pedagogia tem o maior déficit nacional, de 12.171 professores por ano, seguida por Matemática, com 592. Os números indicam diferenças de oferta e demanda, mas não correspondem diretamente a vagas abertas nem garantem contratação.
Como o estudo calculou a demanda docente
O Movimento Profissão Docente estimou a necessidade anual de novos professores a partir das matrículas nas redes públicas, de uma matriz curricular padronizada pelo Inep em 2014 e do tempo médio de carreira docente, considerado em até 40 anos. A oferta foi calculada com base nos concluintes de cursos de licenciatura registrados no Censo da Educação Superior de 2024.
A análise separa os componentes curriculares — como Matemática, Português e Biologia — e distribui os estados em regionais de ensino, de uma a 77 por unidade da Federação. O recorte busca refletir as distâncias que os docentes podem percorrer para trabalhar. Como exemplo, o estudo observa que um professor formado em Amargosa, na Bahia, não consegue necessariamente fazer deslocamento diário de sete horas até Bom Jesus da Lapa, também no estado; uma média estadual poderia ocultar essa falta local.
Os números apresentados a seguir são saldos: valores positivos indicam superávit de concluintes em relação à demanda estimada; valores negativos representam déficit. A tabela do estudo inclui seis disciplinas por região, e a seleção varia entre os recortes regionais.
Região Norte: Ciências, Biologia e Português têm saldos positivos em vários estados
No Amazonas, os saldos são Matemática −28, Biologia +183, Ciências +348, Português +160, Pedagogia −480 e Química +37. No Pará, aparecem Matemática +90, Biologia +356, Ciências +677, Português +282, Pedagogia −696 e Química +71.
Em Rondônia, os números são −29 em Matemática, +11 em Biologia, −24 em Ciências, −2 em Português, −155 em Pedagogia e −1 em Química. No Acre, há −19 em Matemática, +84 em Biologia, −22 em Ciências, +20 em Português, −97 em Pedagogia e +20 em Química.
No Amapá, os saldos são +13 em Matemática, +69 em Biologia, +106 em Ciências, +147 em Português, −59 em Pedagogia e +12 em Química. Roraima registra −13, +21, +20, +5, −126 e +1, respectivamente, nas mesmas disciplinas. No Tocantins, os valores são −14 em Matemática, +46 em Biologia, −25 em Ciências, −14 em Português, −108 em Pedagogia e zero em Química.
O Pará e o Amazonas têm os maiores superávits de Ciências do Norte, com +677 e +348. A região também apresenta saldos positivos de Biologia e Português em vários estados. Pedagogia tem déficit em todos os estados listados, enquanto Matemática alterna entre excedentes e carências. O estudo destaca o Pará para formados em Ciências ou Biologia e recomenda atenção a outros estados para quem tem formação em Pedagogia, apesar da escassez apontada.
Região Nordeste: Piauí tem saldo positivo nos seis componentes apresentados
Na Bahia, os resultados são Matemática −119, Biologia +300, Ciências +16, Português +292, Pedagogia −1.130 e Geografia +173. O Ceará registra +82 em Matemática, +356 em Biologia, −8 em Ciências, +389 em Português, −422 em Pedagogia e +151 em Geografia.
Em Pernambuco, há +76 em Matemática, +348 em Biologia, −91 em Ciências, +437 em Português, +213 em Pedagogia e +90 em Geografia. No Maranhão, os saldos são −78 em Matemática, +322 em Biologia, +307 em Ciências, +390 em Português, −339 em Pedagogia e +8 em Geografia.
A Paraíba apresenta +107 em Matemática, +189 em Biologia, −48 em Ciências, +254 em Português, −114 em Pedagogia e +120 em Geografia. No Piauí, todos os seis componentes têm saldo positivo: Matemática +121, Biologia +308, Ciências +221, Português +204, Pedagogia +153 e Geografia +91.
O Rio Grande do Norte tem +11 em Matemática, +90 em Biologia, −37 em Ciências, +174 em Português, −66 em Pedagogia e +106 em Geografia. Alagoas registra +18, +192, −28, +140, −121 e +95, nessa ordem. Em Sergipe, os valores são +4 em Matemática, +67 em Biologia, −25 em Ciências, +104 em Português, −160 em Pedagogia e +52 em Geografia.
Português e Biologia aparecem com saldos positivos em quase todos os estados do recorte. O Piauí é o único estado nordestino com resultado positivo nos seis componentes exibidos. Ceará e Pernambuco têm superávit de Português de +389 e +437, respectivamente; a oferta de Matemática também supera a demanda estimada no Ceará, em Pernambuco e na Paraíba. Pedagogia apresenta déficits expressivos na Bahia (−1.130), no Ceará (−422) e no Maranhão (−339). O levantamento aponta Piauí e Pernambuco como estados a observar para profissionais de Pedagogia, embora Pernambuco seja o único dos dois com superávit nessa área.
Centro-Oeste: Biologia tem excedente nos quatro estados
Em Goiás, os saldos são Matemática −20, Biologia +121, Ciências −45, Português −18, Pedagogia −237 e Geografia +29. No Distrito Federal, todos os componentes apresentados têm resultado positivo: +16 em Matemática, +90 em Biologia, +177 em Ciências, +225 em Português, +78 em Pedagogia e +38 em Geografia.
Mato Grosso registra +29 em Matemática, +205 em Biologia, −9 em Ciências, +103 em Português, −482 em Pedagogia e +61 em Geografia. Em Mato Grosso do Sul, os resultados são +3 em Matemática, +99 em Biologia, +5 em Ciências, +86 em Português, −260 em Pedagogia e +28 em Geografia.
Biologia tem saldo positivo nos quatro recortes estaduais, com destaque para Mato Grosso (+205), Goiás (+121) e Mato Grosso do Sul (+99). O Distrito Federal apresenta o panorama mais equilibrado entre os componentes listados, inclusive com saldo positivo em Pedagogia. Nos demais estados, essa formação tem déficit: −237 em Goiás, −482 em Mato Grosso e −260 em Mato Grosso do Sul. O estudo observa que o Distrito Federal pode ser uma alternativa mais equilibrada para outras disciplinas, mas aponta maior competição como ressalva.
Sudeste: Rio de Janeiro se destaca em Português
São Paulo apresenta déficit de Matemática (−408) e Pedagogia (−2.451), mas saldo positivo em Biologia (+504), Ciências (+231), Português (+515) e Química (+98). Em Minas Gerais, os números são −178 em Matemática, +646 em Biologia, −214 em Ciências, +109 em Português, −1.952 em Pedagogia e +55 em Química.
No Rio de Janeiro, há +13 em Matemática, +305 em Biologia, +247 em Ciências, +901 em Português, −435 em Pedagogia e +77 em Química. O Espírito Santo registra −51 em Matemática, +77 em Biologia, −21 em Ciências, +63 em Português, −520 em Pedagogia e +11 em Química.
O saldo fluminense de Português (+901) é o maior superávit regional em uma disciplina entre os estados destacados no levantamento. O Rio de Janeiro também tem resultados positivos em Biologia e Ciências. São Paulo combina excedentes em quatro dos seis componentes listados com déficit de Matemática e o maior déficit estadual de Pedagogia. Minas Gerais se destaca em Biologia (+646), mas tem falta estimada em Matemática, Ciências e Pedagogia. No Espírito Santo, Pedagogia também tem déficit expressivo. Para Biologia, o estudo destaca São Paulo e Minas Gerais; para Português, o Rio de Janeiro.
Sul: Paraná reúne resultados positivos em cinco componentes
No Rio Grande do Sul, os valores são Matemática −105, Biologia +187, Ciências −3, Português +68, Pedagogia −1.365 e Geografia −28. Santa Catarina tem −120 em Matemática, +69 em Biologia, −81 em Ciências, +188 em Português, −152 em Pedagogia e −38 em Geografia.
O Paraná registra +7 em Matemática, +320 em Biologia, +16 em Ciências, +105 em Português, −688 em Pedagogia e +80 em Geografia. É o estado com o quadro mais favorável entre os três, com saldo positivo em cinco componentes. Para Português, Santa Catarina (+188) e Rio Grande do Sul (+68) também apresentam excedente estimado.
Pedagogia tem déficit nos três estados: −1.365 no Rio Grande do Sul, −688 no Paraná e −152 em Santa Catarina. O estudo classifica o resultado gaúcho como o segundo maior déficit estadual do país. Paraná é apontado como opção mais equilibrada para várias disciplinas, especialmente Biologia; Santa Catarina se destaca em Português.
O que os números mostram sobre cada disciplina
Biologia é o componente com o padrão mais favorável: há superávit nos recortes regionais apresentados e em praticamente todos os estados. Português também abre possibilidades em vários locais, com destaques para Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Santa Catarina; o Nordeste e o estado fluminense aparecem como áreas promissoras no levantamento.
Ciências tem distribuição mais irregular: o saldo vai de +677 no Pará e +221 no Piauí a −45 em Goiás e −81 em Santa Catarina. O estudo recomenda observar oportunidades no Norte e no Nordeste. Matemática, embora tenha déficit nacional estimado em 592 docentes por ano, apresenta excedentes pontuais, inclusive em estados menores; a análise sugere procurar oportunidades fora de grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Pedagogia é apontada como o maior desafio nacional, com déficit anual estimado em 12.171 professores e carências estruturais nos estados. Piauí, Pernambuco e Distrito Federal são destacados por terem superávit ou déficit menor em comparação com outros recortes, mas a situação varia — e Pernambuco e o Distrito Federal têm saldo positivo nos números apresentados. Química mostra pequenos superávits em diversos estados, indicando oportunidade moderada, embora menos expressiva que as observadas para Biologia e Português.
Como usar o mapa para planejar a busca por trabalho
O relatório recomenda que o profissional localize sua licenciatura nos dados, selecione dois ou três estados com saldos mais favoráveis e confira a distribuição por regional no Anexo 2 do estudo. Essa consulta mais detalhada é importante porque os números estaduais podem não representar as condições de cada localidade e as distâncias envolvidas.
Também é necessário interpretar o tamanho do saldo com cautela. Um superávit de +350 em Biologia não representa a mesma situação que um de +50, mas nenhum dos dois equivale a uma vaga garantida: o indicador compara concluintes e demanda estimada, e a contratação depende de processos e oportunidades concretas. O levantamento sugere contextualizar a candidatura à região; como exemplos, cita experiência em educação ambiental para quem pretende atuar no Pará e participação em projetos de leitura ou literacia para profissionais de Português no Rio de Janeiro.
Para acompanhar oportunidades efetivas, a orientação é consultar portais estaduais de transparência, incluindo os dos Tribunais de Contas de cada unidade da Federação, e os sites das secretarias de Educação. Outra possibilidade é criar alertas no Google com uma busca como “estado secretaria educação concurso professor disciplina”, substituindo os termos pelo local e pela área de interesse.
Formações e experiências que podem ampliar a empregabilidade
Como apenas 24% dos cruzamentos regional-componente têm concluintes em quantidade suficiente, o estudo destaca diferenciais de formação. Entre os aspectos transversais estão especialização ou mestrado na área da licenciatura — indicados como especialmente importantes para Pedagogia e altamente recomendados para Matemática —, experiência documentada em educação especial e inclusão, domínio de tecnologias educacionais e formação em Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O repertório tecnológico citado inclui Google Workspace, Microsoft 365, ambientes virtuais de aprendizagem (LMS) e plataformas adaptativas. A experiência com inclusão é apresentada como relevante para redes de ensino em geral, enquanto a formação em EJA pode ampliar as possibilidades de atuação estadual.
O relatório também lista conhecimentos ligados às necessidades regionais: no Norte, educação indígena, educação em contexto amazônico e educação rural; no Nordeste, educação patrimonial, literacia crítica e educação comunitária, com destaque para Piauí e Pernambuco; no Centro-Oeste, educação ambiental e sustentabilidade, especialmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, associados aos biomas Cerrado e Pantanal.
No Sudeste, são mencionadas inovação pedagógica, educação integral e gestão educacional, em um contexto descrito como mais competitivo e que exige credibilidade. No Sul, o estudo aponta educação ambiental relacionada aos biomas subtropical e temperado, além de educação rural.
Fonte, recorte e limites dos dados
O mapa se baseia na segunda edição do estudo “Apagão Docente: Compreendendo as variações regionais e os caminhos para seu enfrentamento”, publicado pelo Movimento Profissão Docente em outubro de 2025. As fontes são o Censo da Educação Básica e o Censo da Educação Superior do Inep, ambos de 2024.
A pesquisa cruza 535 regionais de ensino com 14 componentes curriculares, totalizando 7.490 casos. Compara a demanda anual estimada por novos professores — calculada com base em matrículas e rotatividade docente — ao número de concluintes de licenciaturas em 2024. O recorte mede quantidade, não qualidade da formação, perfil dos docentes, salários ou políticas de retenção; o próprio estudo identifica esses temas como variáveis importantes que não são captadas pelo mapa.
Os dados ajudam a localizar diferenças na oferta de profissionais e a orientar escolhas de região ou acompanhamento de concursos, mas não substituem a consulta a editais e processos de contratação. A principal conclusão é que as possibilidades são específicas por disciplina e localidade: Biologia tem saldos positivos em muitos estados, Pedagogia concentra o maior déficit, Português se destaca em partes do Nordeste e no Rio de Janeiro, e Matemática exige atenção às variações regionais.
