Para manter as redes públicas funcionando, o Brasil precisaria formar pelo menos 12.171 licenciados em Pedagogia a mais por ano. Esse número aparece na segunda edição da nota técnica Apagão Docente: Compreendendo as variações regionais e os caminhos para seu enfrentamento, publicada pelo Movimento Profissão Docente em outubro de 2025, com base nos censos da educação básica e superior de 2024.
Brasil precisa formar 12.171 pedagogos presenciais a mais por ano para atender a demanda das redes públicas, diz estudo
Esse valor não quer dizer que existam 12.171 vagas abertas ou concursos garantidos. A ideia é mostrar uma insuficiência formativa: a diferença entre a quantidade de concluintes de cursos presenciais de Pedagogia e a necessidade anual projetada de novos docentes para sustentar o quadro das redes municipais e estaduais ao longo do tempo.
O que essa estimativa de 12.171 quer dizer na prática
Na pesquisa, os autores comparam a quantidade de concluintes de licenciaturas presenciais com a projeção da necessidade anual de novos professores por componente curricular. No nível nacional, havia concluintes suficientes em 12 dos 14 componentes analisados. Só que as exceções aparecem justamente em Pedagogia, com insuficiência estimada de 12.171 profissionais, e em Matemática, com 592.
Para Pedagogia, o cálculo considera a necessidade de um professor por turma na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. A demanda anual projetada entra como prioridade de reposição: ela inclui a saída de profissionais por aposentadoria, tentando manter o total de turmas visto em 2024 constante.
Por isso, esse número funciona como um indicador de planejamento da formação docente. O estudo não mede se existem editais em andamento, postos vazios nas escolas ou quantas pessoas vão realmente ser contratadas. E também não dá a entender que todo mundo que conclui Pedagogia terá empregabilidade automática.
Apenas 11% das UFs chegam perto do necessário em Pedagogia
Quando o olhar muda para as unidades federativas, o cenário fica mais duro. A nota técnica aponta que só 11% das UFs tinham concluintes suficientes em Pedagogia para bater a necessidade anual estimada. Já Biologia foi o único componente que apareceu com suficiência em todas as unidades federativas.
Considerando instituições públicas e privadas, só Distrito Federal e Piauí não mostraram insuficiência em pelo menos um dos 14 componentes analisados. Ou seja: mesmo quando o balanço nacional parece ok em uma área, pode existir carência forte em estados específicos.
Desigualdade pesa ainda mais quando o estudo divide o país em regionais
O levantamento separou o Brasil em 535 regionais de ensino para representar, com mais realismo, as distâncias que professores conseguiriam percorrer. Onde não havia divisão administrativa compatível, os autores fizeram ajustes: o Amazonas foi fracionado em quatro microrregiões, enquanto Amapá e Roraima foram tratados como uma única regional cada um.
Ao cruzar as 535 regionais com os 14 componentes curriculares, a conclusão é clara: os concluintes da própria regional só seriam suficientes em 25% dos 7.490 casos, mesmo somando instituições presenciais públicas e privadas. Apenas cinco regionais (ou 0,9%) tinham concluintes suficientes em todos os componentes. Em 403 regionais (equivalente a 75%), faltavam concluintes em nove ou mais áreas, e em 125 regionais não havia suficiência em nenhuma delas.
O estudo exemplifica com a Bahia. Em Língua Portuguesa, o estado tinha 665 concluintes para uma necessidade anual estimada de 373 professores. Só que isso escondia o desequilíbrio dentro do território: a regional de Amargosa tinha excedente, enquanto Bom Jesus da Lapa não registrava concluintes. E o deslocamento rodoviário entre essas duas regiões passa de sete horas, o que torna inviável uma compensação simples no dia a dia.
Para testar a hipótese de redistribuição de excedentes dentro dos estados, os autores estimam que seria preciso estimular a mudança anual de 19.378 profissionais entre regionais. Mesmo assim, continuariam existindo as insuficiências nacionais estimadas de 12.171 em Pedagogia e 592 em Matemática.
Como a nota técnica calcula a necessidade anual de professores
A projeção usa uma matriz curricular pensada para funcionar de forma comum em todas as redes. O modelo parte do pressuposto de que cada turma exige pelo menos um professor por componente. Ele também considera que os docentes lecionam exclusivamente nas áreas ligadas às suas licenciaturas.
Nas premissas, entra uma carreira média de 27 anos, com jornada semanal de 40 horas e um terço do tempo reservado para atividades fora da sala de aula. O estudo assume número de turmas constante e aposentadorias distribuídas uniformemente ao longo dos anos. Com isso, a demanda anual vira uma estimativa dos novos professores necessários para substituir aposentados e manter estável o quadro docente.
Para medir a formação disponível, a pesquisa usa concluintes e vagas de cursos presenciais do Censo da Educação Superior de 2024, e associa os cursos às regionais conforme seus endereços. Já a demanda escolar se baseia no Censo da Educação Básica de 2024.
Limitações evitam tratar o resultado como “previsão” exata
Os próprios autores tratam o trabalho como um exercício de projeção. Eles usaram dados de um único ano, então não dá para comparar tendências como num estudo longitudinal. Mudanças no número de turmas, na duração das carreiras, nas matrizes curriculares e na carga horária podem alterar a necessidade real de profissionais.
Além disso, a análise trabalha com números absolutos de concluintes e não estima quantos licenciados vão efetivamente entrar nas redes públicas ou quanto tempo vão permanecer na docência. Também não incorpora taxas futuras de evasão no cálculo. E não mede a diferença entre habilitação formal e disponibilidade real para assumir uma turma.
Outro ponto: cursos a distância ficaram fora do recorte. O motivo é que, com os dados disponíveis, o vínculo indicava o polo, mas não a cidade onde o estudante mora. Para os autores, isso impediria associar com precisão o futuro professor à regional onde ele poderia atuar. Na prática, a estimativa descreve o recorte presencial usado no estudo, não toda a formação em Pedagogia no país.
Nota técnica propõe políticas com foco no território
Entre as recomendações, a nota técnica defende que bolsas do Pé-de-Meia Licenciaturas sigam as necessidades locais. A ideia inclui considerar vagas, concluintes, componentes curriculares e as diferenças entre regionais.
O estudo também sugere que cada rede faça diagnósticos próprios, usando suas matrizes curriculares e informações qualitativas. Outra proposta é avaliar a redistribuição de vagas das licenciaturas para aproximar a oferta formativa das necessidades de cada território.
Nas localidades onde já existem profissionais formados, mas eles estão distantes das escolas com maior demanda, o documento recomenda priorizar incentivos para mobilidade via a Bolsa Mais Professores.
No fim, o alerta de Pedagogia não se resume a abrir mais graduação. Os resultados apontam que o caminho passa por formar mais, reduzir evasão, atrair concluintes para a rede pública e, principalmente, planejar a formação e a atuação docente no território em que as escolas realmente precisam desses profissionais.
