Chatbots e ferramentas de IA já escrevem textos, corrigem respostas e até fazem mediação entre idiomas. E isso está forçando universidades a repensar o papel do professor de Inglês: não basta saber usar tecnologia — agora entra a discussão sobre autoria, avaliação e critérios de uso em sala.
Se a IA escreve e corrige, para que serve o professor? Estudo aponta um novo papel
Um trabalho apresentado na VietTESOL International Convention 2026 mostra como docentes universitários estão revendo a própria atuação. A pesquisa ouviu 12 professores de Inglês de uma universidade privada do Vietnã.
O objetivo não foi comparar qual ferramenta é “melhor”. Foi entender como esses professores lidam com a perda de autoridade, como muda a relação com os estudantes e o que ainda continua sendo exclusivamente humano no ensino.
Quais tarefas a IA já assumiu?
Segundo a apresentação, sistemas de IA generativa acessíveis conseguem executar tarefas ligadas diretamente ao trabalho do professor de línguas.
- produzir modelos de texto no idioma estudado;
- corrigir a produção escrita do aluno;
- traduzir e mediar significados entre línguas;
- oferecer explicações e reformulações sob demanda.
Isso não “apaga” a docência de forma automática. O ponto é outro: se o estudante consegue uma resposta linguística imediata, o que passa a ser mais importante na aula — e por que o professor ainda é necessário?
Como o estudo foi realizado?
A autora Linh Dieu Tran usou análise fenomenológica interpretativa, uma abordagem focada em compreender como as pessoas constroem sentido a partir da própria experiência.
Os dados vieram de entrevista semiestruturada aprofundada e de três reflexões escritas, feitas em momentos diferentes. Os 12 participantes foram escolhidos para trazer variação de experiência profissional e também de tipo de contrato.
O trabalho foi apresentado em 29 de agosto de 2026, na Universidade de Danang, durante a convenção internacional da VietTESOL.
Quatro perdas aparecem entre os professores
Os resultados iniciais indicam quatro dimensões interligadas. Ou seja: a adoção de IA não vira só uma troca de ferramenta. Ela mexe com identidade, autoridade e com o sentido do trabalho.
- Epistêmica: dúvida sobre qual conhecimento ainda é visto como válido;
- Autoridade: disputa sobre quem realmente ocupa o lugar de especialista na sala;
- Relacional: mudança no vínculo professor-estudante quando a IA vira parte da mediação;
- Vocacional: questionamento sobre o que continua valioso e próprio da docência.
Com isso, os professores não ficam apenas “competindo” com o chatbot. Eles passam a reorganizar o que entendem como sua função profissional.
O professor está sendo substituído?
O estudo não sustenta uma resposta direta de “substituição”. O que aparece nas falas é um processo ainda inicial de reorganização da expertise, e a autora sugere trocar o foco de debate entre aceitação ou resistência para desenvolvimento profissional.
Ao mesmo tempo, a pesquisa tem limites: o grupo foi pequeno, acontece em uma única universidade vietnamita e dentro do ensino superior, especificamente na área de Inglês. Assim, os achados ajudam a levantar perguntas, mas não representam todos os professores ou todos os sistemas educacionais.
12 docentes
Professores universitários de Inglês participaram do estudo.
4 dimensões
Conhecimento, autoridade, relação e vocação.
Nova pergunta
Como reorganizar a expertise, e não só resistir à IA.
O que muda na formação docente?
Para licenciaturas e programas de formação continuada, a mensagem é direta: só ensinar o professor a operar ferramentas não dá conta da mudança. O ensino precisa discutir critérios de qualidade, autoria, confiabilidade e o desenho de atividades que deixem o raciocínio do aluno visível.
Na prática da sala, a gestão do trabalho pode mudar. Em vez de depender tanto de tarefas cujo resultado final vira algo fácil de automatizar, o professor tende a reforçar acompanhamento de processo, conversa oral, revisão comentada e a exigência de justificativa das escolhas linguísticas.
Análise especializada: autoridade precisa ser reconstruída
Com a IA, o professor deixa de ser a única fonte de correção. Só que ele continua tendo uma responsabilidade que o chatbot não assume: conhecer a turma, entender dificuldades recorrentes, definir objetivos e responder pedagogicamente pelo percurso.
A autoridade sai do “domínio da resposta pronta” e passa para a qualidade do julgamento. A decisão pedagógica fica em saber quando uma frase até parece gramaticalmente possível, mas falha no contexto. E também em identificar quando uma correção apaga a voz do estudante.
Essa transição ainda pede regra institucional. Sem orientação sobre como usar IA, cada professor cria critérios sozinho para autoria, avaliação e privacidade. O resultado pode ser conflito entre disciplinas e insegurança para os alunos.
Onde consultar o trabalho apresentado?
O resumo completo aparece na página da apresentação da VietTESOL International Convention. Lá constam método, participantes, resultados emergentes e dados sobre a autora.
O estudo adiciona um ponto pouco explorado ao debate sobre IA e formação docente. Além de ensinar novas ferramentas, universidades terão de ajudar professores a reconstruir identidade, autoridade e práticas de avaliação. E educadores podem comparar quais tarefas já mudaram no dia a dia das aulas de idiomas.
Avanço da IA leva universidades a repensar formação docente, autoria, avaliação e critérios para o uso de chatbots nas aulas saiu primeiro no PEBSP – Portal de Educação.




