Projeto com IA no Ceará: estudante de 16 anos ganha 4º na ISEF 2026

estudante do Ceará usou inteligência artificial para mapear feminicídio
Imagem gerada por IA — estudante do Ceará usou inteligência artificial para mapear feminicídio

Yanna Francisca Nogueira Queiroz, de 16 anos, estudante da EEMTI Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, em Iracema (CE), usou inteligência artificial para mapear a demografia do feminicídio no Ceará entre 2022 e 2025. O resultado veio com força total: ela conquistou o 4º lugar na categoria Ciências Sociais e do Comportamento na Regeneron ISEF 2026, em Phoenix, no Arizona (EUA).

Estudante de Iracema (CE) usa IA para mapear feminicídio e é premiada na ISEF 2026

A pesquisa de Yanna tem um nome direto e bem explicado: “Rastreando a demografia do feminicídio no Ceará (2022-2025) através do aprendizado de máquina e análise cartográfica”. O projeto foi orientado pelo professor Helyson Lucas Bezerra Braz e teve coorientação da professora Sebastiana Vicente Bezerra.

Antes mesmo de chegar nos Estados Unidos, o trabalho já tinha chamado atenção no Brasil. Yanna levou 1º lugar na categoria Ciências Sociais Aplicadas da FEBRACE 2026, na Universidade de São Paulo (USP). Essa conquista garantiu a credencial para representar o país na ISEF 2026.

Uma ferramenta para identificar casos fora dos registros oficiais

Desde o primeiro ano do Ensino Médio, Yanna vem fazendo pesquisa científica na escola. A motivação começou quando ela percebeu a escalada dos casos de feminicídio no Ceará. A professora Roberta Jeane Bezerra Jorge, da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que a inquietação da estudante virou projeto com apoio institucional.

Na prática, o estudo criou uma ferramenta baseada em processamento de linguagem natural (PLN), capaz de coletar e classificar automaticamente dados demográficos a partir de textos noticiosos. O sistema foi treinado com mais de 5.000 reportagens e validado para identificar informações como idade, cor da pele, localidade e circunstâncias das ocorrências.

Depois da parte computacional, veio a etapa mais investigativa: análises estatísticas e cartográficas. Yanna cruzou os dados extraídos com informações da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (SSPDS) e do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), para aprofundar o entendimento sobre o cenário.

O que a pesquisa encontrou
  • Ferramenta treinada com mais de 5.000 reportagens de sites de notícias policiais
  • 174 vítimas identificadas no período mapeado
  • Maioria dos casos envolveu mulheres negras
  • Faixas etárias mais atingidas: 31 a 50 anos e 18 a 30 anos
  • Quase metade dos crimes foi cometida por companheiros ou ex-companheiros
  • Região Metropolitana de Fortaleza concentrou o maior número de ocorrências

Apoio da UFC e de bolsa de iniciação científica

O projeto faz parte do programa de extensão da Associação Brasileira de Jovens Cientistas (ABJC) e foi desenvolvido no Laboratório de Farmacologia de Venenos e Toxinas (Lafavet), da UFC. Com isso, Yanna não ficou só na ideia: ela teve estrutura e acompanhamento para levar a pesquisa adiante.

Para sustentar o trabalho, ela contou com bolsa de iniciação científica do PIBIC-EM/CNPq. Além disso, o Rotary Club Fortaleza Edson Queiroz entrou com suporte de infraestrutura tecnológica, incluindo a aquisição de computadores. Também houve atividades formativas, com oficinas e mentorias.

Segundo a própria estudante, o objetivo da ferramenta vai além do levantamento: ela quer ajudar a entender melhor quem são as vítimas, em quais contextos os crimes acontecem e quais regiões apresentam maior risco. A ideia é contribuir com informações que apoiem estratégias de prevenção.

Do Ceará a Phoenix, no Arizona

A Regeneron ISEF 2026 aconteceu entre os dias 9 e 15 de maio e reuniu mais de 1.700 jovens cientistas de mais de 60 países. Na cerimônia de premiação do dia 15 de maio, o Grand Awards escolheu os melhores trabalhos do 1º ao 4º lugar em 22 categorias temáticas.

No palco, Yanna recebeu o resultado na categoria Ciências Sociais e do Comportamento, diante de uma plateia internacional.

A rede pública estadual do Ceará levou três representações para a ISEF 2026. Além do projeto de Yanna, a EEMTI Marconi Coelho Reis, de Cascavel, também foi premiada com o Sustainpoly, um biocompósito desenvolvido a partir de resíduos do maracujá.

Uma trajetória de orientação científica

A coorientadora Sebastiana Vicente Bezerra começou a orientar pesquisas científicas há dez anos. Tudo começou quando dois alunos a procuraram depois de ela voltar de licença-maternidade. Desde então, ela já orientou ou coorientou diversos trabalhos premiados em eventos como a Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), no Rio Grande do Sul.

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