Queda de 31% em docentes jovens: risco de falta até 2040

queda de 31% entre docentes jovens
Imagem gerada por IA — queda de 31% entre docentes jovens

Um estudo do Instituto Semesp acendeu um alerta bem direto sobre a renovação do magistério no Brasil. Entre 2015 e 2023, o número de professores do ensino médio com 60 anos ou mais disparou, enquanto a quantidade de docentes com até 24 anos caiu. Se essa troca de gerações não acontecer no ritmo certo, a educação básica pode sentir a falta de profissionais em breve.

Os dados fazem parte da segunda edição do estudo “Apagão dos Professores: O desafio da renovação dos professores no Brasil”, divulgado pelo Instituto Semesp em setembro de 2026. A pesquisa olha para o ensino médio e mede o quanto a carreira consegue repor gente que está perto da aposentadoria.

Número de professores jovens cai enquanto os mais velhos aumentam no ensino médio

O movimento chama atenção porque, no total, o número de docentes do ensino médio até cresceu. Entre 2015 e 2023, a quantidade total subiu 6,6%. Só que, quando você separa por idade, o quadro fica bem diferente.

Entre os professores com até 24 anos, a redução foi forte. O contingente passou de aproximadamente 17 mil para 12 mil, o que representa queda de 31,1%.

Já na faixa de 60 anos ou mais, aconteceu o contrário. O número de docentes saltou de cerca de 18 mil para 37 mil, crescimento de 104,5%.

Para o Semesp, o ponto principal não é só a quantidade atual de professores. O problema real é a capacidade de formar e atrair novos profissionais em volume suficiente para substituir quem vai deixar a carreira nos próximos anos.

Na avaliação do instituto, entram nessa conta fatores como remuneração, condições de trabalho, sobrecarga e baixa atratividade da profissão, que dificultam a renovação do quadro docente.

Salário e rotina puxada entram no debate do estudo

A remuneração aparece como um dos fatores analisados. Segundo os dados apresentados pelo Semesp, em 2025 um professor do ensino médio recebia aproximadamente R$ 6,5 mil por mês. No mesmo recorte, a renda mensal de trabalhadores com ensino superior completo ficava por volta de R$ 8,1 mil.

O valor também varia conforme a disciplina. O levantamento cita, por exemplo, remuneração média de cerca de R$ 4.695 para professores de Sociologia do ensino médio.

Além do dinheiro, o estudo chama atenção para a carga de trabalho. Com base em dados do indicador de esforço docente do Inep usados na pesquisa, em 2025 41,4% dos professores do ensino médio trabalhavam numa combinação que envolvia entre 50 e 400 alunos, atuação em dois turnos, em uma ou duas escolas e em duas etapas de ensino.

Esse tipo de arranjo tende a significar mais aulas para preparar, mais avaliações para corrigir e ainda deslocamentos entre unidades escolares.

Quais disciplinas mais perdem espaço para os professores jovens

Para medir o cenário, o Instituto Semesp criou a Taxa de Renovação Docente. Ela relaciona o número de professores com até 24 anos ao contingente de profissionais com 60 anos ou mais.

Na prática, quanto menor o indicador, menor a presença de docentes jovens em comparação com os mais velhos.

Entre 2015 e 2023, algumas áreas registraram quedas expressivas nessa taxa:

  • Química: de 1,77 para 0,42;
  • Educação Física: de 1,59 para 0,40;
  • Física: de 1,53 para 0,40;
  • Biologia: de 1,45 para 0,37.

No levantamento mais recente, as menores taxas aparecem em disciplinas de Humanidades. O estudo destaca Geografia com 0,216, seguida por História (0,234), Língua Portuguesa (0,240), Sociologia (0,263), Filosofia (0,274) e Artes (0,278).

O próprio instituto explica o sentido do número: uma taxa de 0,216 em Geografia indica que havia aproximadamente um professor jovem para cada cinco docentes com 60 anos ou mais.

Projeção do Semesp aponta agravamento até 2040

O estudo também traz uma projeção para os próximos anos. De acordo com o Semesp, a Taxa de Renovação Docente pode chegar a 0,17 em 2040. Isso representaria aproximadamente um professor com até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais.

Em números absolutos, a estimativa indicada pelo instituto é de cerca de 10,7 mil professores jovens diante de 61,9 mil profissionais com 60 anos ou mais.

O Semesp reforça que a dificuldade de renovação não fica só nas disciplinas com taxas mais baixas hoje. O envelhecimento do quadro e a dificuldade de entrada de novas gerações aparecem como problemas mais amplos para a carreira docente.

Formar, atrair e manter: o foco do “apagão” que pode chegar na prática

O debate sobre o chamado “apagão de professores” ganhou força nos últimos anos. Em 2022, o Semesp já tinha projetado a possibilidade de déficit de professores na educação básica até 2040. Agora, a pesquisa atualiza o diagnóstico e concentra a análise na renovação do quadro docente.

O estudo não quer dizer que vai faltar professor em todas as escolas ou em todas as disciplinas. A taxa de renovação mostra principalmente a composição etária. E ela precisa ser lida junto com outros fatores, como demanda por docentes, formação inicial, distribuição regional e aposentadorias.

Mesmo assim, o cenário acende uma cobrança clara para a educação brasileira: formar, atrair e manter novas gerações de professores antes que a saída de profissionais mais experientes aumente ainda mais a necessidade de reposição.

“Apagão” de professores

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