Rônei Alves da Silva, catador de material reciclável e um dos líderes da categoria no Distrito Federal, enfrentou um começo duro: foi analfabeto até os 28 anos. Mesmo trabalhando na coleta, ele decidiu estudar e, mais de duas décadas depois, recebeu a carteira da OAB/DF aos 51 anos, virando a chave da vida rumo à advocacia.
Catador de recicláveis e liderança no DF: a virada começou com a alfabetização
Enquanto atuava como catador na cooperativa 100 Dimensão, no DF, Rônei correu atrás da escola pelo caminho do supletivo: primeiro, para concluir o ensino fundamental, e depois para finalizar o ensino médio. Na juventude, ele tinha chegado só até a 5ª série, com abandonos e repetências que marcaram a trajetória.
Na época em que parou de estudar, ele mesmo resumiu o sentimento: repetiu de ano cinco vezes e chegou a dizer que estudar “não era pra ele”. Mesmo assim, o tempo passou, ele voltou a acreditar e foi se alfabetizando — até assumir uma posição de liderança na reciclagem.
Liderança nas cooperativas: contrato de R$ 21,3 milhões e o CIR do DF
Anos depois, já alfabetizado, Rônei se tornou uma referência entre os catadores do Distrito Federal. Ele ajudou a empurrar a profissionalização das cooperativas da categoria, assumindo papel importante como representante.
Um marco veio em 2013: Rônei assinou um contrato de R$ 21,3 milhões com o BNDES. Esse recurso ajudou a viabilizar a construção do Complexo Integrado de Reciclagem (CIR) do DF, hoje com dois grandes galpões, a cerca de 28 minutos do Palácio do Planalto.
Mais de dez anos em Direito na UCB: persistência por falta de dinheiro
Foi nesse período de mudanças e luta diária que Rônei decidiu entrar na faculdade. Ele cursou Direito na Universidade Católica de Brasília (UCB), uma instituição tradicional na capital.
O problema era o básico: falta de dinheiro. Por isso, ele levou pouco mais de dez anos para concluir a graduação. Para conseguir seguir matriculado, usou um empréstimo obtido pela própria mãe e passou por sucessivas renegociações com a universidade.
Quando finalmente fechou a graduação, ele deixou claro que não chegou sozinho: “Se me formei em Direito, foi porque todos me ajudaram”.
OAB: aprovado na objetiva, reprovado na discursiva por 0,25 ponto
Depois de formado, a caminhada ainda não acabou. Na primeira tentativa no Exame de Ordem, Rônei foi aprovado na fase objetiva, mas tropeçou na 2ª fase discursiva: a reprovação veio por apenas 0,25 ponto.
Mesmo com o golpe, ele manteve a cabeça firme. Foi direto: “Tenho fé e na próxima eu passo.”
A virada aconteceu em 28 de julho de 2025. Com 51 anos, Rônei recebeu a carteira profissional da OAB/DF durante solenidade no auditório da instituição, com as mãos do presidente da Seccional, Paulo Maurício Siqueira. “A advocacia mudou minha vida”, ele resumiu após o momento.
A história também ganhou força em veículos como o Correio Braziliense, que descreveu a trajetória como “de catador a doutor: uma trajetória de superação”. E fica ainda mais evidente o impacto da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e do ensino superior como caminho real de transformação — especialmente para quem saiu da escola cedo e teve que voltar depois.




