Wesley de Jesus Batista, de 23 anos, conquistou o 1º lugar em Medicina na Universidade de São Paulo (USP), no campus de Ribeirão Preto. Ele chegou lá pelo Sisu, depois de cinco anos estudando por conta própria, sem cursinho particular, com apostilas usadas e videoaulas gratuitas que ele mesmo encontrou na internet.
Filho de pedreiro e empregada doméstica conquista 1º lugar em Medicina na USP
Wesley mora no bairro Águas Claras, em Cajazeiras, uma das áreas habitacionais mais conhecidas da periferia de Salvador (BA). A história dele é de quem cresceu longe do ensino superior dentro de casa: ele é filho de Djalma Souza Batista, pedreiro de 51 anos, e de Liliana Maria de Jesus, empregada doméstica de 54 anos. Nenhum dos dois pais chegou a estudar na graduação.
A rotina familiar também revela a dificuldade: a casa ainda está inacabada, com cômodos sem laje e sem pintura. Wesley divide dois quartos com os pais e mais os três irmãos, enquanto tenta dar conta dos próprios estudos.
Cinco anos de estudo com material gratuito
Toda a trajetória escolar de Wesley aconteceu na rede pública. Ele terminou o ensino médio em 2019 e começou a focar na aprovação em Medicina a partir de 2021. O resultado do sonho veio com a confirmação apenas em 2026.
O estudante conta que não dependia de preparatórios pagos. Segundo ele, a base vinha de apostilas usadas que as pessoas doavam, de materiais que ele encontrava na internet e de aulas online, especialmente pelo YouTube. Ele resume a sensação com uma frase direta: “tem muita coisa disponível atualmente”.
Na prática, a rotina era firme: os estudos começavam diariamente às 5 horas da manhã, antes de qualquer outra obrigação do dia.
O sonho que nasceu na infância
Para Wesley, a Medicina não apareceu do nada na adolescência. O interesse veio desde cedo, ligado ao próprio histórico de saúde. Ele tem asma e sempre foi atendido em hospitais públicos. “Desde pequeno quero ser médico. Sempre usei hospitais públicos porque tenho asma”, disse.
Quando chegou a hora da prova, o desempenho no Enem foi suficiente para garantir vaga em qualquer universidade pública participante do Sisu. Ou seja: o resultado dele reforça que o caminho de acesso ao ensino superior público pode ser construído com foco e estratégia, mesmo com limitações na preparação.
Os 1.800 km entre Salvador e Ribeirão Preto
Depois da aprovação, veio o tamanho do desafio prático: são mais de 1.800 quilômetros entre a casa dele em Salvador e o campus da USP em Ribeirão Preto. Para conseguir bancar passagem, moradia e alimentação nos primeiros meses, Wesley precisou correr atrás de apoio.
Como a família não tinha condição de financiar a mudança, ele criou uma campanha de arrecadação online. O vídeo em que Wesley descobre a aprovação ao lado dos pais ficou viral e circulou nas redes logo após a divulgação do resultado, em janeiro deste ano.
Com a repercussão, o número de seguidores do estudante no Instagram passou de 34 mil. A campanha de arrecadação, apesar de não atingir a meta total definida, conseguiu reunir recursos suficientes para viabilizar a ida e a mudança para São Paulo.
A história dele se conecta com outras conquistas de estudantes de escola pública em cursos de Medicina de universidades federais e estaduais. No centro disso, ficam os caminhos de acesso como Enem e Sisu, que seguem abrindo portas para jovens de baixa renda.




